Após três pregões de alta volatilidade cambial na última semana de maio, fundos multimercado com exposição a moeda registraram resgates líquidos estimados em R$ 1,8 bilhão, segundo dados preliminares da ANBIMA compilados pela redação. A saída de recursos não foi uniforme: fundos com volatilidade controlada e histórico de drawdown menor sofreram menos. O mecanismo D+1 explica parte do estresse de caixa nos gestores.

Resgate em fundo não é venda instantânea de ativos. Cotista pede saída hoje; administradora processa; gestor tem até o prazo regulamentar para liquidar posição e pagar. Nessa lacuna, entra e sai recurso em ritmos diferentes — e liquidez intradiária do fundo vira problema de tesouraria do gestor, não do investidor final.

Quem resgatou

Distribuidoras relatam concentração de pedidos de clientes pessoa física com posição acima de seis meses — perfil que entrou atrás de retorno cambial e saiu após dois dias de marcação negativa consecutiva. Institucionais reduziram exposição de forma mais gradual, em alguns casos migrando para fundos de renda fixa com liquidez D+0 via ETFs.

Fundos com estratégia macro agressiva e alavancagem via derivativos apareceram entre os mais afetados. Não por insolvência, mas porque cotista associa oscilação ampla de cota a risco excessivo. Gestores com comunicação clara sobre drawdown máximo tiveram fluxo menos negativo — detalhe operacional que faz diferença em semana ruim.

Comparativo de fluxo líquido entre multimercado e renda fixa
Fluxo líquido semanal estimado: multimercado versus renda fixa DI. Fonte: ANBIMA, compilado pela redação.

Pressão de caixa D+1

Gestor recebe lista de resgates ao final do dia e precisa honrar pagamento no prazo sem liquidar posição em momento desfavorável. Alguns mantêm tranche de liquidez em Tesouro ou compromissada; outros vendem futuro para hedge e liquidam físico depois. Quando resgates se concentram em fundos médios, a venda de ativos menos líquidos pode pressionar preço — efeito que se retroalimenta na cota do dia seguinte.

"Resgate D+1 é teste de tesouraria. Quem vive só de retorno e esquece liquidez apanha na semana de stress." — administrador fiduciário, São Paulo

Para onde foi o recurso

Parte significativa migrou para fundos DI e ETFs de renda fixa com liquidez intradiária na B3. Outra parcela permaneceu em conta remunerada aguardando definição — padrão típico após choque de volatilidade. Não houve, nos dados que vimos, migração massiva para previdência ou offshore na mesma semana.

Entrada líquida em renda fixa curta não compensou integralmente a saída de multimercado em valor absoluto, mas sinaliza preferência por liquidez e previsibilidade. Gestores de multimercado que conversamos esperam estabilização se o câmbio arrefecer por cinco pregões seguidos — critério arbitrário, mas alinhado ao comportamento histórico de cotistas pós-choque.

Leitura para junho

Primeira semana de junho mostrou resgates desacelerando, sem virar captação líquida. Fundos com track record longo e baixa correlação com índice local continuam recebendo aporte de family offices. O setor não está em crise de liquidez sistêmica; está em rotação de preferência de risco — distinção que importa para quem interpreta fluxo de fundos como sinal macro.

Acompanhamos na próxima publicação a relação entre resgate e movimento em futuro de índice nos mesmos dias. Se gestores hedgearem vendas no cash, pode haver divergência entre fluxo de fundos e fluxo estrangeiro na B3 — tema que nossa equipe de mercados já está cruzando.